terça-feira, janeiro 17
Quatro Mulheres
Pára o autocarro.
As quatro mulheres saem deixando um velho, um motorista cansado e um autocarro vazio para trás.
Seguem-se três degraus. Um, dois, três, rua. O poste de aço a indicar a paragem lá continua e os cães nervosos com a provocação contínua dos miúdos e a aproximação frequente de estranhos, agitam-se por detrás das grades pouco sólidas das casas familiares do bairro. Não ladram. Talvez estivessem a dormir ou talvez tivessem reconhecido o cheiro familiar de vizinhos próximos que fazem um trajecto rotineiro todos os dias.
As quatro mulheres saem para a estrada e encaminham-se para a saída do bairro. Ao fundo da rua vêem-se os prédios que se seguem, que custumam fazer sombra às casinhas lá por volta das cinco, seis da tarde, talvez mais cedo ainda porque agora estamos no Inverno.
Ouvem-se os saltos, derivados de um passo apressado e decidido. Aqueles passos de pessoas que sabem para onde querem ir e sabem o que vão fazer. Instala-se um silêncio pensativo, ritmado pelo som dos passos e das respirações ofegantes de Inverno, quando o ar custa a entrar nos pulmões e nos saí muito bafo pela boca.
As mulheres dirigem-se ao final da rua, cada uma, cada qual, emergida em si e mergulhada nos seus pensamentos. Mantêm o passo decidido absorvidas pelas suas vidas vulgares, difíceis e monótonas. Umas mais desgastadas pela vida e labuta, outras mais frescas com carne pronta a sofrer e ossos não preparados para levar pancada, mas todas mulheres, na sua vida e no seu universo paralelo, num universo inteiro cheio de universos paralelos egocêntricos.
Chegadas a um ponto, a uma espécie de cruzamento para peões, cada uma segue a sua via. Uma entra por uma rua paralela do bairro, outras duas sobem umas escadas do lado oposto que vão para a rua principal e a outra atravessa a estrada e dirije-se pelo jardim ao seu apartamento de luxo, num daqueles prédios altos, com ar de "estou aqui e daqui não me tiram".
Cada uma imersa na sua vida, depois de um dia de mais trabalho, segue para sua casa, para finalizar um dia cansativo com algo de conhecido e familiar e se possível com algum descanso.
As quatro mulheres separam-se sem trocar uma única palavra.
