domingo, agosto 12

Sorrisos Perfeitos

Sai de casa, já ao fim do dia, para mais uma das minhas solitárias tardes de domingo. Sabia onde me dirigir, para poder chorar à vontade a ouvir música. Não tomei a Avenida, preferi antes ir por dentro da minha cidade, para depois virar directamente para o centro da cidade. Fui andando a pé, sozinha e de lágrimas nos olhos. A música mudou e eu fiquei ligeiramente mais esperançosa, no momento em que estava a tomar o atalho para o centro da cidade. Nesse momento, vi à janela um rapaz a olhar directamente para mim. O irmão dele estava a brincar naquela rua pequenina e ele estava a tomar conta dele. Retribui o olhar e depois voltei a desviá-lo, olhei para o irmão. Continuei a andar e instintivamente voltei a erguer o olhar, para o ver olhar para mim com um sorriso nos olhos cúmplice e apreciador. Corei ligeiramente e continuei a andar. Voltei-me para trás e voltei a ver aqueles olhos a olharem para mim, o sorriso estendido aos cantos da boca. Continuei a andar, virei a esquina e desapareci. Olhei uma última vez para trás, na curva da rua, donde já não podia ver a cara dele, apenas as mãos. Mãos perfeitas.
Continuei a andar, segui o meu rumo ligeiramente mais animada. Os meus passos tomaram outro caminho e dirigi-me ao miradouro da cidade, para poder ver o rio à minha frente. Desci umas escadas e fui para um sítio onde sabia poder estar sozinha, longe de olhares avaliadores. Sentei-me. A música mudou. Comecei a chorar. Primeiro apenas algumas lágrimas, um choro de menina, miudo e doce, depois aos soluços enterrei a cabeça nos braços e deixei-me levar pelo pranto e pela dor. Passado uma música, levantei a cabeça, limpei as lágrimas, levantei-me e fui-me embora.
Segui o mesmo caminho por onde os meus passos me tinham trazido. A meio entroume uma poeira no olho e fiquei muito aflita. Perguntei-me porque tal teria acontecido. Fui até um café e tentei expulsá-la por meio de água sem grande sucesso. Decidi esperar que o olho chorasse a poeira para fora, de modo a evitar arranhá-lo indevidamente. Continuei a andar e ao aproximar-me da ruazinha, senti-me ansiosa. Estaria ele lá? Ao aproximar-me vi alguém sentado na mesma janela, aproimei-me mais, reparei que estava a fumar e a olhar para dentro da sala para ver televisão. O corpo inclinado lateralmente, mais para fora, como se o seu dono não quisesse perder pitada do que se passava na rua. Olhei para o corpo. O corpo de um homem. Ele não me viu, continuei a andar e olhei para ele outra vez. Ele sentiu-me e olhou. Instintivamente ergui a mão e fiz um dos meus melhores sorrisos. Vi o sorriso dele a abrir-se como que puxado pelo meu e a estender-se aos olhos, com cumplicidade e alegria.
Voltei as costas e fui-me embora, o coração aos saltos. Cheguei à avenida e resolvi desce-la desta vez, enquanto ainda tentava curar o meu olho. Dei pulinhos de alegria.
Senti-me bem.
Gosto da minha cidade.
Vou voltar a vê-lo.

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